(Crédito: Embaixada dos Estados Unidos/Divulgação)

A três dias de embarcar para Washington e encerrar uma carreira diplomática de 30 anos, para ingressar na vida empresarial, o embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Todd Crawford Chapman, recebeu a imprensa na residência oficial, ontem, para fazer um balanço de seu trabalho à frente da representação e abordar temas de importância bilateral. O diplomata de 59 anos chegou ao Brasil em 29 de março de 2020. “Saio do Brasil, mas o Brasil não sairá de mim”, afirmou. Durante os 481 dias como embaixador, visitou 14 estados e reuniu-se com vários ministros. Ao tratar do meio ambiente, Chapman disse que este é o momento de o Brasil não ser vilão, mas herói. Ele espera que o país seja a estrela da Conferência sobre Mudanças Climáticas da ONU (COP-26), que ocorrerá entre 1º e 21 de novembro, em Glasgow, capital da Escócia. O embaixador também falou sobre a polêmica envolvendo o debate entre urna eletrônica e voto impresso no Brasil, demonstrou confiança na democracia brasileira e disse crer que um golpe nas eleições de 2022 não está em jogo. Também disse ser importante que o compromisso com a democracia seja visto como inegociável. “Todos aqueles que fizeram previsões de que a democracia acabaria no Brasil até agora estão errados”, lembrou. Leia os principais trechos da entrevista.

Meio ambiente

“Talvez seja o tema em que houve mais mudanças na posição entre as administrações Trump e Biden na área de prioridade. Mesmo no ano passado, avançamos muito no diálogo com o governo de (Jair) Bolsonaro. O meio ambiente recebeu uma promoção de prioridade. Ficou bastante claro para mim que foi necessário aumentar a importância desta área em minhas conversas com o governo. Foi exatamente isso que eu fiz. No ano passado, trabalhei muito bem com o ex-ministro Ricardo Salles. Conversamos muito sobre temas de suma importância. Fizemos alguns avanços, mas é claro que a preocupação com o desmatamento ilegal continua forte. É importante chegarmos a soluções rápidas, para mostrar ao mundo a dedicação do Brasil. Não somente de um ministério, mas do setor privado, dos governadores, dos grupos indígenas. Esse é um projeto da sociedade. O diálogo é fluido e constante. Eu e quatro colegas embaixadores (União Europeia, Noruega, Alemanha e Reino Unido) formamos um grupo de amigos e visitamos cerca de dez ministros diferentes, a partir de fevereiro. Foi bastante produtivo. O Brasil é líder em muitas áreas. A matriz elétrica, acho que é a mais limpa de todo o G-20. A energia renovável, hidrelétrica… Tudo isso é muito bom. É importante concentrar todos os esforços para reduzir o desmatamento ilegal. O Brasil pode ser um líder mundial nesta área e deverá sê-lo. Este é o seu momento de não ser o vilão, de ser o herói. Todo o Brasil tem que se juntar para ser o herói. No COP-26, eu gostaria de ver o Brasil como a grande estrela do filme. Por que? Porque estão fazendo tudo certo para reduzir esse problema do desmatamento ilegal. Este seria o meu conselho ao governo. Espero que o Brasil se torne um herói ambiental. O presidente Bolsonaro já fez compromissos importantes. Ele mostrou muita visão e coragem pelos compromissos na Cúpula do Clima, em 22 de abril. Como adiantar, até 2050, os compromissos para que o Brasil seja um país de zero carbono. É importantíssima essa declaração. Número dois: compromisso de zero em desmatamento ilegal até 2030. Importante! Depois, dobrar o Orçamento para combater o desmatamento ilegal.”

Ameaças à democracia brasileira

“A fortaleza do Brasil é seu compromisso com a democracia e com a força das instituições. O Brasil tem um sistema similar ao dos EUA, com os Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário. Entre esses três entes sempre há tensão em uma democracia. O importante é a continuidade de uma democracia constitucional. Sempre acompanhamos as tendências democráticas em todos os países. É importante esse compromisso do governo, do Congresso e do Supremo Tribunal Federal com a institucionalidade no Brasil. É importante que a democracia institucional continue viva e forte no Brasil, e tenho toda a confiança de que isso será a realidade.”

Voto impresso x urna eletrônica

“Na América Latina, as pessoas querem saber qual a opinião do governo americano. Se você mostrar a sua opinião com força… ‘Ah, mas vocês estão interferindo em nossos assuntos internos’. Se você não fala, as pessoas dizem: ‘Os EUA se esqueceram da América Latina e não colocam importância nela”. Olhem o meu país. Isso mostra como as pessoas estão investidas na democracia. Ninguém está perguntando se deve ter eleição ou não. Em alguns países, isso nem mesmo é permitido. Nesse mesmo Hemisfério, tem pessoas colocando suas vidas em risco, pois não têm o privilégio de debater que tipo de urnas devem usar. É claro que é complicado. Alguns confiam em uma maneira de eleição, outros confiam em outra maneira. Vocês têm que resolver. De uma maneira democrática, aberta e com suas leis. O compromisso de democracia é importante que seja visto como inegociável.”

Reação dos EUA a “golpe” no Brasil

“Para pensar em qualquer eventualidade e fazer uma previsão sobre o que fariam os EUA, é só vocês olharem a nossa história. Mas, na minha opinião, isso não está em jogo. O que está em jogo é que você tem um país bastante ativo, democrático e com muitos debates. Isso é saudável. É um país superdemocrático, com uma super tradição e com instituições bastante fortes. Confio na liderança deste país em todos os ramos do seu governo para fazer a coisa certa, que é continuar com a grande tradição democrática.”

Corrupção no Brasil

“O Brasil é um país democrático, estabelecido. Todos que fizeram previsões de que a democracia acabaria no Brasil até agora estão errados. A imprensa está livre. Vocês podem escrever o que quiserem. Temos confiança e expectativa de que essa situação continuará por muitas décadas mais. Eu me lembro da democracia (brasileira no passado), em que houve tanta corrupção. Caixa 2, Petrolão, Mensalão… O grande câncer do Brasil é a corrupção. Acho que estamos vendo uma mudança que começou. Estive aqui em 2013. Eu me lembro dos protestos. A Avenida Paulista cheia de pessoas dizendo que tinha que mudar, que alguma coisa tinha que mudar. Quando tentaram colocar bandeiras de partidos lá…’Não, não, não pode”. É um movimento popular contra esse câncer no Brasil. Acho que isso está sendo tratado de maneira efetiva. A melhor coisa que pode acontecer para os EUA é ter um aliado forte e democrático, mais rico e mais justo. Quando meu aliado é mais forte e mais seguro, os Estados Unidos são mais fortes e mais seguros.”

Relação entre EUA e Brasil

“Nossos ares de trabalho e de cooperação estão se expandindo. Mais e mais agências do governo americano querem se estabelecer aqui no Brasil. É claro que, com a mudança de nosso governo, houve um trabalho de transição que não ocorreu sem dificuldades, mas conseguimos. Nossa relação está avançando. Tivemos uma visita importante recentemente, sobre a qual não falarei. O diretor da CIA (William J. Burns) nos visitou. Foi importante. O ministro (Fábio) Faria (das Comunicações) foi a Washington, o que também foi importante. Mais visitas estão chegando ao Brasil. Tenho toda a confiança de que essa relação continuará sendo bastante produtiva para os dois lados. O presidente (Jair) Bolsonaro mostrou grande interesse em fazer avançar essa relação. Isso é algo que apreciamos muito. Se vocês lerem as cartas que o presidente Bolsonaro enviou ao presidente Biden, verão que a comunicação tem sido bastante positiva. Os Estados Unidos e o Brasil têm muitas convergências. Há conflitos? Sim. Há áreas onde não estamos de acordo? Sim. Mas o que é bom para o Brasil é bom para a nossa aliança.”

Tecnologia 5G

“O 5G tem sido um tema muito ativo. Trabalhei nele ainda em Washington, antes de chegar ao Brasil. O ministro Faria esteve em Washington e em Nova York e reuniu-se com muitas empresas, muitas autoridades norte-americanas para entender como olhamos a situação. O objetivo sempre foi compartilhar informação. Como o Brasil é um aliado econômico, e como nós somos os maiores investidores aqui, é de extrema importância a segurança econômica nacional do Brasil. O debate é: sobre qual plataforma e quais princípios você quer estabelecer a economia? Princípios de liberdade, de abertura, de usar a tecnologia para liberar pessoas ou para reprimir pessoas? Essa tecnologia vem de empresas abertas e com auditoria? Ou você quer empresas que operam debaixo de regras de países autoritários, onde elas são obrigadas pela lei a entregar informação, roubando propriedade intelectual? Essa é a decisão a ser tomada. Vimos a decisão do governo americano de restringir o acesso à tecnologia americana.”

Espionagem da NSA no Brasil

“Foi em um outro tempo. Um tempo muito difícil. Isso foi no passado, há 8 ou 9 anos. Estamos em outro momento. Aprendemos muito sobre isso durante aquele momento. Estamos em outro caminho.”

Brasil e China

“Já ouvi muitas vezes que a China é o parceiro número um. Vamos esclarecer que é o comprador número um. Um comprador não é um parceiro, é um cliente. Uma parceria é quando os dois lados querem o melhor para o outro. O parceiro quer que você desenvolva sua própria economia. Parceiro é quem investe. De longe, o maior investidor no Brasil são os Estados Unidos. Os números do Banco Central dizem que os investimentos valorizados dos EUA no Brasil somavam US$ 145 bilhões no fim de 2019. Os números da China comunista eram de US$ 28 bilhões. Não tem comparação. Façam uma pergunta: os investidores brasileiros têm permissão para fazer esses investimentos na China?”

O Brasil na OCDE

“O meu governo anterior disse desejar que o Brasil seja recebido dentro da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), cumprindo com todas as normas e tudo isso. Até o momento, meu governo não declarou nada sobre a OCDE. A política continua até que ela não seja nossa. O que faz o Brasil na área do meio ambiente tem um impacto em todas as suas relações com os EUA, com a Europa e com todos os outros que priorizam essa área em sua política.”

Aposentadoria

“Foi uma decisão pessoal, de família. Estive em Denver, onde moram meus dois filhos, Joshua e Jason. Durante o Natal, eles perguntaram por que eu não poderia morar lá. Resolvemos que, agora, é o tempo certo para concluir minha carreira de 30 anos. Foi uma decisão bastante difícil. Eu adoro este país, eu adoro a minha profissão.”

O posto diplomático

“Tem sido uma experiência fantástica. O trabalho, o acesso, as conquistas… Estes dois anos e meio talvez tenham sido os mais produtivos na relação Brasil-Estados Unidos. Muitos avanços no comércio, na segurança, no espaço. Muitos trabalhos técnicos que não fazem manchetes, mas que são igualmente super importantes para as instituições, pois as aproximam. Tem sido fantástico! Tenho muito orgulho da nossa equipe. Temos 1.500 pessoas trabalhando para a missão diplomática, aqui. É a sexta maior equipe de todo o mundo. São quatro consulados, um escritório em Belo Horizonte e a embaixada.”

Correio Braziliense